Por: Álvaro Neto, Carlos Bahia e Gabriela Metting
Por dentro da mente de um distúrbio
Saiba como é a mente de uma pessoa com distúrbio alimentar com a psicóloga Marlize Rêgo.
A psicóloga e psicanalista Marlize Rêgo, formada pela UFBA no ano de 1986 e que trabalha em consultório particular e no CETAD (Centro de Estudo e Terapia do Abuso de Drogas), órgão ligado à UFBA, nos deu informações e esclareceu algumas dúvidas sobre distúrbios alimentares em entrevista a alunos do 7º ano do Colégio Miró. Segundo ela, transtorno alimentar é quando a pessoa come diferente do normal, uma dificuldade ao se alimentar.
Existe diferença entre transtorno e distúrbio alimentar?
Drª Marlize Rêgo: Não. Na verdade, é só questão de terminologia. Ambos apontam para o patológico. Quando falamos em distúrbio ou transtorno, é que algo não está ocorrendo como deveria, em graus maiores ou menores. Por exemplo, aquela pessoa só come chocolate, ou só come macarrão. Esse ato não é um distúrbio, mas, se se tornar freqüente, pode iniciar esse processo. Isso é comum nessa idade (adolescência).
As opiniões sobre a aparência do paciente mudam a ideia que ele tem de si mesmo?
Drª Marlize Rêgo: Em casos graves, o paciente tem uma ideia equivocada sobre si mesmo, como por exemplo, a anoréxica que emagrece sempre achando que continua acima do peso, ela tem uma ideia dela que não corresponde à realidade.
Como é a mente de uma pessoa com distúrbio alimentar?
Drª Marlize Rêgo: Existem vários aspectos. O aspecto psicológico é como se organizou psiquicamente. Primeiramente, as pessoas ficam muito ansiosas, pois a relação com a comida vai estar associada também com o exercício de colocar a comida para dentro e logo depois para fora, achando que isso vai acalmar.
O fato de mulheres serem mais preocupadas com a aparência do que os homens é a causa delas sofrerem mais com esses distúrbios?
Drª Marlize Rêgo: Acreditar que mulheres se preocupam mais com a aparência é coisa do século passado. No momento, vivemos uma situação um pouco diferente. Existe uma super valorização do corpo. Uma coisa é você cuidar do corpo, fazer exercício, mas a gente vive em um momento em que tem um excesso. As pessoas querem malhar demais, comer de menos. Existe uma competição entre homens e mulheres; que uma menina quer ficar mais bonita do que a outra; os homens, um querer ficar mais forte que o outro...
Se a família tem bons hábitos alimentares, é possível alguns deles desenvolverem algum transtorno alimentar?
Drª Marlize Rêgo: É possível, sim. Se você comer bem, não é estimulado a comer porcaria, claro que estimula as pessoas a comerem bem. Mas, se a família não come verdura, come só gordura, é claro que estimula a maus hábitos alimentares. O distúrbio alimentar não é uma questão somente da comida, é questão de um processo físico. Por exemplo, minha família come bem e eu vou comer porcaria como do contra, ou vice-versa. Isso é muito mais que só o transtorno, é a questão interna.
Medicamento é a melhor saída para curar esses transtornos?
Drª Marlize Rêgo: Não. O medicamento, em algumas situações, é preciso; em outras, você pode tratar só com a psicoterapia. Mas em situações graves você precisa do medicamento para inibir a ansiedade, impulsos orgânicos e mentais que vão contribuir para essa resposta na falta do alimento.
O que é bulimia?
Drª Marlize Rêgo: O fenômeno da bulimia é que você come muito, achando que falta alguma coisa dentro do organismo, e depois bota para fora. Eu, quando acordo, sinto que falta algo. No decorrer do dia, eu trabalho, vejo pessoas com que gosto de me relacionar, fazer coisas para lidar com isso que está faltando. Essas pessoas comem para fechar esse vazio, mas comem tanto que não suportam e provocam os vômitos. Às vezes, isso é natural, mas, na maioria das vezes, é forçado.
O que é anorexia?
Drª Marlize Rêgo: Anorexia já é não comer, se achar gordo e ser magro, olhar no espelho e se ver gordo e emagrecer excessivamente, mas continuar se achando acima do peso. Acha que comida é veneno e que vai engordar. Com isso, elimina a comida totalmente. Todo mundo vê o paciente muito magro e ele continua se achando gordo. Teve um caso recente, em uma novela, em que a menina sofria de anorexia. Ela não comia nada, mas bebia, e qualquer coisa ela já ficava bêbada e quase teve falência dos órgãos.
Como é a vida da pessoa com anorexia?
Drª Marlize Rêgo: A princípio, é uma vida normal, mas tanto o anoréxico quanto o bulímico começam com esse processo e a família geralmente não percebe, porque ir ao banheiro e vomitar não é nada, não querer comer hoje também, mas quando se torna constante, fica uma coisa doentia, e a família percebe que se instalou. Teve uma discussão sobre manequins que falava sobre o fato de que, para as meninas serem uma, tinham que emagrecer muito, e isso gerou muita polêmica, porque as incentivavam a pararem de comer.
Como você ajuda o bulímico?
Drª Marlize Rêgo: Como eu sou psicóloga, psicanalista, meu trabalho é com psicoterapia e psicanálise. O que é importante não é nem como eu ajudo, mas como o psicólogo pode fazer, respeitando o momento do paciente, seja bulímico ou anoréxico. Nós primeiro ouvimos e vamos fazendo com que ele tente buscar entender o que está acontecendo com ele.
E como você ajuda o anoréxico?
Drª Marlize Rêgo: É a mesma coisa. Ele tem que saber que está doente, o que vai fazer com isso. Agora sempre com o apoio da medicina. Eu já atendi um paciente anoréxico, que começou com a bulimia, e parou até de vomitar e passou a não comer.
A família participa desse processo?
Drª Marlize Rêgo: Deveria participar sempre, porém nem sempre quer participar. Às vezes o paciente não quer que ela participe, mas é importante. No meu caso, eu chamo a família e mando para outro profissional, porque é importante o paciente ter aquele espaço das sessões como dele.
Como o transtorno se desenvolve?
Drª Marlize Rêgo: Isso pode acontecer pouco a pouco, de repente, depende de cada história, cada caso.